Talvez a moça de casaco azul sentada ao lado tenha comentado
com algum conhecido, ao chegar em São Paulo, que havia uma menina que chorou
durante o voo inteiro. Isso renderia algumas especulações e motivo para uma
conversa casual. Ao redor, de fato, eu era a única extremamente triste. As
outras pessoas pareciam bem em estar naquele avião. A questão não era que eu
estivesse me sentindo ruim em estar viajando. Essa viagem, como disse no relato
anterior, é a realização de um sonho. O
que me fez chorar durante todo o voo foi a dor de deixar para trás meu pai com
olhos vermelhos de lágrimas, minha mãe em prantos, meu amor - sempre tão
tranquilo, mas com um abraço apertado a denunciar a dor da saudade antecipada -
e um amigo muito querido. Essa dor é extremamente... Dolorosa! E vocês vão me
perdoar essa redundância.
Durante todo o mês de agosto e as três semanas de setembro
em que eu estive esperando pelo visto espanhol chegar do Consulado de Salvador,
eu estava mergulhada em mar de providências a serem tomadas, problemas e
detalhes a serem resolvidos, e também uma dúvida se a viagem iria dar certo
mesmo. Tudo isso ocupava minha mente... E foi somente quando o visto chegou
(depois de ter remarcado três vezes o voo) que começou a cair a ficha. Todo
beijo do meu Cândido parecia único. Toda conversa corriqueira com minha mãe
parecia essencial. Todo abraço e bênção do meu pai pareciam fundamentais. Toda
conversa e sorriso com meus amigos, também. E lembrar dessas coisas simples
agora me faz querer chorar de novo. Desculpe se estou sendo excessivamente
triste nesse relato, mas me propus a descrever aqui as experiências e
impressões que forem surgindo nesse período. Infelizmente, essa proposta inclui
esses sentimentos.
papai e mamãe - olhos inchados de choro.
Cândido, meu Abor.
Bem, a partir do dia 20 de setembro estarei convivendo com a saudade. Isso é só mais um reflexo do fato de a vida nunca ser perfeita.
Sobre o voo Teresina a São Paulo: foi tranquilo. Nenhuma
turbulência. Um copo de água servido. Em
Guarulhos, tive o prazer de ficar na casa de uma família linda. Rita Sales,
prima de uma tia minha, aceitou me acolher na casa dela desde as 8 horas da
manhã até as 21 horas, horário que retornamos ao aeroporto para eu pegar o voo
para Madrid. E toda a família foi muito amorosa comigo e eu realmente me senti
em casa, como se os conhecesse antes.
Sobre o vôo São Paulo a Madrid: foi muito bom. Fiquei na
janela. Assisti Guarulhos iluminada de cima. Assisti Malévola dublada em
espanhol. Jantei frango com legumes às uma hora da madrugada e tomei café às
nove do dia 21. Iberia é uma companhia aérea muito boa (ainda que eu não
conheça tantas companhias, mas ao desembarcar muitas pessoas comentavam da
qualidade das refeições e do conforto).
No aeroporto de Madrid passei 4 horas esperando o vôo para
Granada. Minha diversão foi gratuita: observar as pessoas. Agora eu passei a
ser estrangeira. E é engraçado notar que todo mundo está se observando.
o degradê de azul à amarelo no aeroporto de Madrid
De Madrid para Granada: houve atraso. O avião era bem
pequeno. O aeroporto de Granada também é bem pequeno, menor que o de Teresina.
Cheguei lá e acabei perdendo o ônibus do aeroporto para Granada, tudo porque
não perguntei para ninguém onde estava a parada de ônibus. Depois de descobri,
tinha um ônibus marcado para sair só 22 horas. Então, esperei. Melhor pagar 3
euros de ônibus do que 30 euros de táxi.
as pessoas esperando os passageiros do avião que acabava de chegar,
olhando pelos buraquinhos do portão, no aeroporto de Granada.
Por fim, cheguei à Granada. A cidade me pareceu linda desde
o começo. Fui recebida pelo meu mentor Adrián Plasencia, que me ajudou com
minhas duas pesadas malas até o apartamento onde eu vou viver. Mas, por
enquanto, não vou postar nada de Granada. Esses detalhes vou reservar para o
próximo relato. Estou publicando esse relato de um restaurante – o 100 Montaditos
– usando o WiFi, depois de apreciar uma salada muito boa com meus amigos
brasileiros. E tem muito mais a ser aqui registrado... Mas por hora, fiquem com esses detalhes.
Hasta luego!






